EMBAIXADOR DO IRÃ NO BRASIL ACUSA EUA DE USAREM NEGOCIAÇÕES NUCLEARES COMO "FARSA" PARA MUDANÇA DE REGIME
*Abdollah Nekounam concedeu coletiva em Brasília nesta segunda-feira (2) e defendeu direito de defesa do país após ataques de Israel e Estados Unidos*
O embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam, concedeu entrevista coletiva na Embaixada do país em Brasília nesta segunda-feira (2) para expor a posição iraniana diante da escalada do conflito com Estados Unidos e Israel. O diplomata defendeu que Washington não busca, de verdade, um acordo nuclear com o país persa e classificou as negociações como uma "farsa" para promover a "mudança de regime" em Teerã.
NEGOCIAÇÕES INTERROMPIDAS
Nekounam iniciou sua fala lembrando que estava prevista para esta segunda uma reunião de especialistas em questões nucleares em Viena, mediada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). "Hoje, era previsto acontecer a reunião de especialistas de questões nucleares em Viena por meio da AIEA. Mas, novamente, a mesa de negociação foi atacada pelo regime sionista [Israel] e pelos EUA", afirmou.
Para o diplomata, a agressão seria fruto de uma "visão" dos EUA que imaginam ser "os donos do mundo". "O presidente atual dos EUA pensa que é o rei do mundo. Pode ser que alguns países, devido a seus interesses, possam aceitar essas alegações e imaginações. Mas a República Islâmica do Irã, há 47 anos, busca sua independência", completou.
SUCESSÃO DO LÍDER SUPREMO
Nekounam destacou ainda que o país rapidamente substituiu o comando do Líder Supremo Ali Khamenei, assassinado no último sábado (28), por um Conselho interino que manteve a defesa do país de forma "contínua, firme e poderosa", sem descontinuidades na estrutura de Poder do Estado iraniano.
"Vocês viram que, com o assassinato do Líder Supremo, que comanda toda questão de defesa do país, as coisas se organizaram de forma célere e rápida. A defesa [do país] está contínua, firme e poderosa", afirmou.
Um Conselho de Liderança Interino foi nomeado para assumir os poderes de Khamenei enquanto a Assembleia dos Especialistas não elege o novo líder Supremo.
ANÁLISE GEOPOLÍTICA
Para analistas consultados pela Agência Brasil, a troca de regime em Teerã teria como objetivo deter a expansão econômica da China, vista como ameaça pelos Estados Unidos, além de consolidar a hegemonia política e militar de Israel no Oriente Médio.
Por outro lado, Tel Aviv e Washington alegam que o ataque contra o Irã é "preventivo", sustentando que o país estaria desenvolvendo um programa de artefatos nucleares, o que representaria ameaça a Israel. Teerã sempre sustentou que seu programa nuclear é para fins pacíficos.
CRÍTICA AOS EUA E CASO EPSTEIN
O embaixador questionou a legitimidade dos Estados Unidos para "administrarem o planeta" citando o caso dos arquivos de Jeffrey Epstein, financista estadunidense condenado por abuso sexual de menores e tráfico de pessoas. "O nosso mundo tem valor muito superior para ser administrado pelos 'reis' que, nos arquivos do Epstein, estão cada vez mais envolvidos. As pessoas que ultrapassaram as fronteiras de humanidade não merecem e não valem administrar a soberania do mundo", completou.
As relações de Epstein com a elite política norte-americana, incluindo sua amizade com o presidente Trump, têm provocado abalos políticos no país e entre vários aliados de Washington.
POSIÇÃO DO BRASIL
Questionado sobre a posição do Brasil em relação ao conflito, Nekounam agradeceu a manifestação do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (MRE) que condenou o uso da força por Israel e EUA. "Acreditamos e vemos essa ação da parte do governo do Brasil como uma ação valorosa e dá atenção aos valores do ser humano, de soberania, de integridade territorial e de independência dos governos", comentou.
DIREITO DE DEFESA
O diplomata defendeu o direito de Teerã de atacar bases militares dos inimigos. "É nosso direito, porque nós fomos atacados, porque nós estamos nos defendendo com direito legítimo. Sobre nossas relações de amizade, com nossos países vizinhos, não há nenhum desentendimento. Nossas ações são contra bases militares dos EUA e alguns centros do regime sionista. Que isso não se considera ataque aos territórios desses países mencionados", justificou.
Calcula-se que os ataques do Irã tenham atingido alvos dos EUA em países como Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuwait e Jordânia.
CONTEXTO DO CONFLITO
Pela segunda vez em oito meses, Israel e os EUA lançaram uma agressão contra o Irã em meio às negociações sobre o programa nuclear e balístico do país persa. Ainda no primeiro governo Trump, os EUA abandonaram o acordo firmado em 2015, sob o governo de Barack Obama, para inspeção internacional do programa nuclear iraniano.
Um dia antes da agressão contra o Irã, o chanceler de Omã, Badr bin Hamad Albusaidi, mediador das negociações entre Washington e Teerã, informou que eles estariam muito próximos de um acordo e que o Irã teria concordado em não manter urânio enriquecido em elevados teores, que possibilitassem a criação de uma bomba atômica.






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