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segunda-feira, 2 de março de 2026

Dólar sobe e petróleo dispara com ataque militar ao Irã

foto: Valter Campanato/Agência Brasil


 ATAQUE AO IRÃ DISPARA PREÇO DO PETRÓLEO E GERA ONDA DE INCERTEZA NOS MERCADOS GLOBAIS

Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial, é o epicentro da preocupação; dólar sobe e expectativa de corte de juros no Brasil pode ser afetada

O preço do petróleo no mercado internacional disparou na manhã desta segunda-feira (2), primeiro dia útil após a ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. O ataque resultou na morte de centenas de pessoas, incluindo o líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, e outras autoridades do primeiro escalão, elevando drasticamente as tensões geopolíticas no Oriente Médio.

PETRÓLEO DISPARA

Pouco depois das 12h (horário de Brasília), o contrato futuro do petróleo tipo Brent, referência global da matéria-prima, era negociado em Londres próximo de US$ 79 o barril, o que representa alta de cerca de 7,6%. Já o WTI, negociado em Nova York, era cotado a pouco mais de US$ 71 o barril, com salto de aproximadamente 6%.

No Brasil, as ações da Petrobras refletiram imediatamente o movimento global. Pouco antes das 13h, os papéis da estatal negociavam na B3 a R$ 44,39, alta de 3,90%.

ESTREITO DE ORMUZ: O PONTO CRÍTICO

De acordo com analistas, a alta do petróleo reflete preocupação com a situação do Estreito de Ormuz, passagem marítima ao sul do Irã que liga os golfos Pérsico e de Omã. Por ali, transitam cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás, tornando a região estrategicamente vital para o abastecimento global.

O economista Rodolpho Sartori, da agência classificadora de risco de crédito Austin Rating, explicou à Agência Brasil que o Estreito de Ormuz é a principal rota global para o transporte de petróleo vindo do Irã, Arábia Saudita, Iraque e outros grandes produtores da commodity. "É o principal fator que faz o preço do petróleo explodir. Com o Estreito de Ormuz fechado, a oferta cai muito e, consequentemente, os preços sobem quase que de forma imediata", afirmou.

No sábado, dia dos primeiros ataques, houve relatos de centenas de embarcações ancoradas, sem poder atravessar o estreito. Sartori lembra que o barril do Brent chegou a bater 13% de alta nesta segunda, superando US$ 80. Segundo ele, a alta "é sintomática, pois expõe o quão volátil podem ser os preços em cenários de conflito". Para o economista, enquanto o conflito seguir e o Estreito de Ormuz permanecer fechado, é esperado que os preços do petróleo sigam elevados "e até subam conforme os estoques disponíveis se reduzam".

PROBLEMA LOGÍSTICO, NÃO PRODUTIVO

O gerente da tesouraria do Banco Daycoval, Otávio Oliveira, frisa que a preocupação global não é com a produção de petróleo, mas sim com a questão logística. De acordo com Oliveira, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep+) já anunciou no domingo (1º) o aumento da produção, como forma de garantir a oferta do combustível.

"A Opep tem capacidade produtiva ociosa suficiente para poder suprir o Irã, se o país for retirado da equação produtiva do petróleo global", avalia. No entanto, o gerente chama atenção para a logística do Estreito de Ormuz. "Realmente é estreito, com pouca coisa você conseguiria fechá-lo. Um conflito, então, nem se fala", afirma.

De acordo com Oliveira, a interrupção do tráfego de navios levaria a uma "bagunça" em todas as cadeias produtivas. Na visão dele, mesmo sendo exportador de petróleo, o Brasil poderia ser afetado por importar derivados do óleo bruto, que chegariam encarecidos ao país.

IMPACTOS NA INFLAÇÃO E JUROS

O economista Rodolpho Sartori aponta que, caso a guerra se prolongue, a alta do preço do petróleo pode levar à necessidade de repasse de preços ao consumidor, o que representaria um "repique na inflação".

Otávio Oliveira, do Banco Daycoval, não descarta que o conflito tenha como reflexo a diminuição da magnitude do corte de juros no Brasil. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central já anunciou que pretende cortar a taxa básica de juros, a Selic, na reunião do conselho em março. Atualmente, a Selic está em 15% ao ano.

"Tem a possibilidade de esse corte de juros vir um pouco mais tímido. Talvez não 0,50 ponto percentual (p.p.), talvez 0,25 p.p.", assinala Oliveira. Quanto menor a taxa, maior o incentivo à atividade econômica e à geração de emprego.

DÓLAR EM ALTA

O dólar também apresenta alta nesta segunda-feira, interrompendo uma trajetória de queda das últimas semanas, quando atingiu o menor valor em 21 meses. Pouco depois das 12h, a cotação da moeda estrangeira beirava R$ 5,20, alta próxima de 1%.

Otávio Oliveira explica que, em um primeiro momento, ocorre um movimento chamado de fuga do risco, quando investidores migram recursos de países emergentes, considerados investimento de risco, para economias mais consolidadas. "Tem a venda do real e a compra de outros ativos, tal qual o próprio dólar, que se fortalece globalmente, e outras moedas que são justamente utilizadas para momentos como esse, como o iene japonês", detalha.

Rodolpho Sartori considera o cenário do dólar complexo. "Em outros períodos, incertezas globais gerariam um dólar mais forte, mas parece que estamos em uma mudança de paradigma", diz. Ele avalia que a questão geopolítica que envolve a gestão do presidente Donald Trump leva a incertezas que "têm pesado contra a própria moeda".

"Parece-me natural que haja algum repique no dólar nesses primeiros dias de conflito, mas não temos mais o quadro do dólar se valorizar de forma abrupta por conta de conflitos, como antes ocorria. Imagino que a moeda americana siga oscilando na faixa de R$ 5,20 a R$ 5,25", estima Sartori.

O mercado global segue atento aos desdobramentos do conflito, que promete manter a volatilidade nos preços das commodities e nos ativos financeiros nas próximas semanas.

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